
Um dos três grandes poetas trágicos da literatura grega clássica, ao lado de Ésquilo e Eurípides, Sófocles (496-406 a.C.) foi o mais profícuo entre eles (embora só se conheçam sete das 123 peças que escreveu), o mais premiado e o autor daquela que, graças à psicanálise, talvez seja a tragédia de maior ressonância na modernidade, Édipo Rei. Já Filoctetes, penúltima peça que redigiu e a última que encenou, é sua obra menos difundida, ainda que se trate de uma das mais refinadas e cativantes dentre todas as tragédias gregas.
A lenda de Filoctetes era bastante conhecida na mitologia; o personagem é citado, entre outras obras, na Ilíada e na Odisseia. Filoctetes era um arqueiro exímio e foi um dos líderes gregos que partiram para a guerra de Troia. No caminho, ao pararem na ilha de Crisa, ele é mordido no pé por uma serpente; a ferida infecciona e passa a exalar um cheiro insuportável que, somado aos seus incessantes gritos de dor, fazem com que os companheiros o abandonem numa ilha deserta antes de seguirem para Troia. Dez anos depois, com a guerra ainda indefinida, os gregos são informados por um oráculo de que só conquistarão a vitória se tiverem a seu lado Filoctetes munido do arco invencível que recebera das mãos de Héracles.
Na versão de Sófocles, a tarefa de resgatá-lo cabe a Odisseu, que, por ter sido um dos responsáveis pelo abandono do arqueiro, decide levar consigo o jovem filho de Aquiles, Neoptólemo, o qual deverá enganar Filoctetes a fim de conduzi-lo ao navio. É sobre esta situação que se desenvolverá o drama, cujo interesse maior, como aponta Edmund Wilson, reside no conflito entre os traços de caráter dos três personagens principais: o experiente Odisseu, que não hesita em recorrer à mentira em nome da causa grega; Filoctetes, que, traído por seu próprio povo, há dez anos alimenta seu rancor; e Neoptólemo, recém-convocado para a guerra de Troia e ansioso por provar seu valor, mas que enfrentará uma crise de consciência diante da inglória tarefa de ludibriar o honrado e injustiçado Filoctetes.
Como diz Trajano Vieira no posfácio do volume, “a ausência de registro na tradição é o pior legado para um herói, que luta para eternizar seu nome nas narrativas”. Pode-se dizer que o Filoctetes de Sófocles tem no reconhecimento um de seus motivos centrais. Neoptólemo, que vive seu processo iniciatório, busca ser reconhecido por sua dedicação à causa pátria, que no caso equivale a ser reconhecido por Odisseu; e Filoctetes se ressente por ter sido privado do reconhecimento que já conquistara antes de ser abandonado como um pária na ilha deserta. Nesse sentido, a cena em que Neoptólemo finge não conhecê-lo e ignorar completamente sua história se reveste de enorme valor simbólico.
Como se vê, trata-se de uma tragédia atípica: a verdadeira catástrofe (o banimento do herói e seu prolongado sofrimento) já aconteceu e, ao invés de grandes feitos heroicos, o que vemos são conflitos de natureza ética, individual e psicológica — e que talvez por isso mesmo nos tocam mais de perto.
Filoctetes:
Forasteiros,
quem se encoraja a manobrar os remos
rumo à terra sem porto e sem morada?
Ignoro estirpe e pátria de onde vindes.
Quem sois? O estilo do vestuário evoca
em mim a Hélade adorável! Quero
ouvir como falais. Perplexidade
ou medo não pretendo despertar
com meu aspecto rude. Só, tristíssimo,
um deserdado, um traste sem amigos,
mereço piedade. Sois de paz?
Seria um erro sonegar-me isso,
como eu, calar quem sou, um grave equívoco.
Neoptólemo:
Começo pelo início: somos gregos,
se é isso o que desejas conhecer.
Filoctetes:
Que som sutil! Depois de tanto tempo,
ouvir desse rapaz a doce música!
Filoctetes de Sófocles (2009) – tradução, posfácio e notas de Trajano Vieira
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